terça-feira, 27 de agosto de 2013

virginia percebeu a loucura voltando, vincent percebeu a loucura voltando, as rosas perceberam a verdade. as horas perceberam a loucura das rosas, ouvir a verdade. os quadros sabiam a verdade, desde o início os quadros ouviam e gritavam a verdade – a beleza está por toda parte. todos os outros estavam surdos à verdade. esta surdez, a forma mais compreensível de mediocridade, não apenas uma aceitável forma de ausência de coragem, mas a mais segura e confortável forma de ser – inútil paisagem. loucura é ouvir o que me grita beleza por toda parte. virginia viu, vincent escreveu, que inútil era amar a arte. pois a vida é surda a esse amor. há dias em que a vida é surda a todos os amores. a vida jamais saberá nos amar como nos ama a arte. loucura é apenas ouvir o que me grita beleza por toda parte, é ouvir o que me grita luas por todos os lagos, o que me grita luas e lagos por todos os lados, o que me grita virginias e vincents por todos os quadros. os outros estão surdos, e pensam que estão certos, pensam que sabem o que sentem os pianos, o que os pianos perderam, tudo o que os pianos não perdoaram. apenas porque estão surdos, eles pensam que podem ser beethovens. e assim desperdiçam pianos a qualquer hora, a qualquer rosa, a qualquer quadro. vincent, virginia: tanto viver que para eles era imperdoável: tanto amar que para eles era insuportável. pois tudo era belo. no fim tudo tinha sido belo, mas os outros diziam que não. eles diziam que toda aquela beleza era maligna e não magnólias, decidiram que tal beleza era culpada. e eu, ao falar dela, mais um cúmplice de suas incandescências; sobretudo para as rosas, um réu confesso de todo o seu arder, aquecer e aclarar.
    virginia percebeu a loucura voltando, ela percebeu que as coisas belas eram as culpadas. a beleza era a única culpada por nós não amarmos todas as coisas.
    vincent percebeu a loucura voltando, ele percebeu que as coisas feias eram inocentes. as coisas feias não eram feias, elas sempre foram inocentes de toda a nossa falta de amor.

Fernando Koproski
do livro NUNCA SEREMOS TÃO FELIZES COMO AGORA

http://www.livrariascuritiba.com.br/nunca-seremos-tao-felizes-como-agora-autores,product,LV244140,3393.aspx



quinta-feira, 15 de agosto de 2013

E quem conhece melhor o coração de uma mulher, do que o Xico Sá? Há tempos este grande escritor, com textos com concentração etílica altamente bukowskiana, tem feito uma verdadeiro estudo da anatomia da perdição, seus porquês e suas desrazões. Basta ler algumas das crônicas geniais que ele publica todo dia na Folha de S. Paulo. E eu tive o prazer de ver ele escrevendo a orelha da minha segunda antologia poética do Bukowski: AMOR É TUDO QUE NÓS DISSEMOS QUE NÃO ERA:

Só penso na tal da poesia como Artonin Artaud, um grande artista, talvez o maior possível, em setembro de 1947, revelando ao seu psiquiatra de plantão a FALTA, com caixa alta mesmo nas letras, como no bilhete, do ópio. Faltou. Não queira saber do final da história desse cara.

Vamos em frente. Tudo é ausência, ressaca e elipse. Mesmo para quem achou que tudo era falsidade, poesia de araque, “Vá para o Tibete”, lerás mais adiante neste livro, e espere a salvação, como se em qualquer suposto lugar místico existisse a ideia da não-canalhice.“Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja”, como nos receita o autor destes versos, aí sim, estamos falando de um lugar qualquer do sagrado, poemas.

Com tradução do cara que já nos deu, e sempre nos oferta as melhores saideiras do Buk, Fernando Koproski, jamais abaixe a porta e nos jogue água nos pés, puerra! Boa, FK, prove para esses tarados que Bukowski é ainda mais genial nos poemas que na sua angustiada prosa comedora de gente qual terra de cemitério.

A dramaturgia da foda está, yesss, mais ainda nesse livro. Provo: “e a visão dela completamente nua me fez lembrar mais de/ meus dias no matadouro do que/ de Mozart/ mas, é claro, quem quer comer/ o Mozart?”

Enfim, sempre uma porrada na solenidade. Seja do gozo fácil, seja na morte barata. “6 garças paradas numa lagoa”. É estilo. Sócrates, o filósofo ou o boleiro, style. Os dinossauros velhos ou jovens? Estilo, mas chega de ilusões perdidas. “O sol não será visto e será sempre noite”.

Quer saber...? Leia esse livro com a lindeza das suas pernas cambaleantes. Como já casei com uma mulher sem uma perna, sou otimista: ela era a melhor das minas. Que tal ser um homem de verdade e não pensar nessas coisas?

Mulher é metonímia, parte pelo todo, e você não passa de um canalha covarde, certo? Perdeu, malaco: ela sempre se levanta como uma santa e diz algo. Se vai embora é problema seu, talvez se ficasse desse merda. Boa leitura.

Xico Sá

e aqui, uma bela crônica do Xico:

http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2013/08/13/para-entender-como-bate-o-coracao-de-uma-mulher/


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Bukowski nasceu num 16 de agosto, e pra comemorar, essa semana é toda bukowskiana. E dos escritores que conheço, nenhum é mais bukowskiano do que o Mário Bortolotto. É incrível a qualidade de tudo o que esse cara faz, sejam livros de contos, poemas, romances ou peças de teatro. Ele absorveu a influência do velho Buk, tridestilada em velhos toneis de poesia, terra vermelha, angústia e selvageria, e acabou construindo uma obra original. E eu tive o grande prazer de ter ele, que é meu amigo, escrevendo esta orelha para o livro ESSA LOUCURA ROUBADA... do velho Buk:

A LOUCURA NOSSA DE CADA VERSO

Bukowski sempre acertou o touro no primeiro golpe. É o amigo mais próximo com quem sempre pude contar. Chegando em casa totalmente torto e angustiado, era só ir lá e abrir em uma página qualquer, e ele dava o toque “eu então diria a eles para terem outro caso de amor infeliz e nunca usarem uma fita de seda na máquina de escrever”. Era só a guria encher o saco com suas cobranças sem limite e ele avisava paternal “uma esposa rosnando no portão é mais do que qualquer homem pode suportar”. Era só Deus avisar que meu tempo tava se esgotando e eu sorria repetindo baixinho de modo que Ele não me escutasse “acredito em fazer por merecer nosso caminho / mas também acredito em um presente inesperado”. Bukowski é o amigo que senta no balcão, pede uma cerveja e nem olha na sua cara, mas é bom saber que ele tá por ali. É bom saber que a noite vai se estender, e se eu conseguir arrastar uma piranha loira postiça qualquer pra um quarto no hotel vagabundo do outro lado da rua, ele não vai se dar nem ao trabalho de conferir o material.

Fernando Koproski é o cara certo pra traduzir Bukowski. E se a gente ainda levar em conta que os nomes rimam e que dá um belo hai-kai, eu diria com toda a certeza que o jovem Koproski entende plenamente o velho Bukowski, conversa com ele sem importuná-lo com qualquer psicologismo babaca, e sempre faz as perguntas certas, não fala de poesia e nem de outros escritores, deixa o velho falar só quando tem vontade e se ele ferrar no sono, na poltrona, completamente bêbado, Koproski não vai incomodá-lo. Vai deitar resignado no sofá e esperar até o outro dia pra continuar o serviço. E quando Bukowski acordar com sede no meio da tarde e ver aquele jovem cabeludo deitado no sofá, vai berrar algo do tipo “Quem diabos é você?”. Koproski vai sorrir compreensivo e como um mestre zen, vai esperar o Homem se acalmar & ouvir todos os Brahms & beber todas as biritas & vomitar todos os palavrões inimagináveis, enquanto grifa em seu caderno de anotações as palavras “fragilidade” e “violência”. Faz um círculo em volta de “desespero” e recosta-se no sofá.

Koproski e Bukowski, meus camaradas, vou dizer uma coisa. Ninguém tasca. Porra nenhuma que vocês vão ficar com essa loucura só pra vocês. Ela também é minha e estamos conversados. Depois de toda essa minha gana persecutória, não cheguei até aqui pra voltar pra casa com toda essa sanidade doentia. Vocês não vão se livrar de mim assim tão fácil.

Mário Bortolotto





terça-feira, 13 de agosto de 2013

O que os escritores, poetas, críticos e jornalistas disseram sobre as minhas traduções do BUKOWSKI em ESSA LOUCURA ROUBADA QUE NÃO DESEJO A NINGUÉM A NÃO SER A MIM MESMO AMÉM:

Centrada na produção inicial do escritor, a seleção é um dos pontos fortes do livro, além da tradução de Fernando Koproski, que se esforça por manter o coloquialismo tão fundamental para a beleza dos originais. Poderia ser difícil identificar a beleza na literatura desse repórter do mundo cão, não fossem versos como “não se esqueça:/ o tempo existe é para ser desperdiçado,/ o amor fracassa/ e a morte é inútil”. Afinal a poesia de Bukowski obtém a atenção merecida num livro que é, desde já, referencial.
Joca Reiners Terron, Folha de S. Paulo

A sua receita para ser um grande escritor é dedicar-se de forma cega à escrita, embriagando-se com a vida e não tendo nenhuma delicadeza na hora de pôr as coisas no papel: “bata nela [na máquina de escrever] com força/ como se fosse uma luta de pesos pesados”. É essa violência diante da atividade poética que determina o diferencial de sua obra.
Miguel Sanches Neto, Carta Capital

Fazia tempo que o velho Bukowski não aparecia em verso nas estantes brasileiras. A antologia é uma edição bilíngue que reúne poemas desbocados e demolidores, selecionados dos 11 livros do autor, do período de 1969 a 1999.
Nelson de Oliveira, Rascunho

Bukowski não gostava de poesia rimada, mas a tradução de Koproski em “Ressacas” é dotada de uma energia própria – bem acima da mera substituição de idiomas. Essa “contaminação” do tradutor pelo universo bukowskiano é um selo de qualidade sobre todo o livro. Como bem observa Mário Bortolotto na orelha, os dois nomes até rimam.
Paulo Briguet, Jornal de Londrina

O poeta curitibano Fernando Koproski, pra mim, está muito acima dos tradutores de poesia do Brasil. Ele consegue ser original. Uma obra-prima o que ele fez com o Bukowski. Pra quem gosta de poesia é um prato cheio de delícias. Gostosuras para os paladares mais refinados.
Thadeu Wojciechowski, Polaco da barreirinha

Há poucos minutos mesmo, comecei ler um livro de poemas [Essa loucura roubada...]. Abri a primeira página e, dada a força, logo parei: vim escrever. A poesia pode ser o lugar de coisas grandiosas, intensas, ainda que, muitas vezes, simples. Talvez, grandiosas e intensas também porque simples.
Alberto Pucheu, Pelo colorido, para além do cinzento

Charles Bukowski pertence a uma tradição da poesia norte-americana iniciada por Walt Whitman, o autor de Folhas da Relva, criador do verso livre e herói da rebelião romântica. Assim como o seu antepassado poético, talvez o primeiro beatnik da história, Bukowski desenvolve uma obra de fôlego oratório, com versos longos, narrativos e discursivos, fazendo uso da linguagem coloquial, do humor e de referências à vida cotidiana. Logo, um poeta na contramão da vanguarda, mais atenta à concisão, à síntese e à estética do fragmento, seguindo os passos dessa outra grande precursora que foi Emily Dickinson. Porém, a arte verbal de Bukowski está muito longe da fragilidade ou da rotina literária: temos aqui um autor inquieto, insubmisso, à margem do cânone e da convenção, que provoca o leitor com sua língua ferina e desbocada. Um poeta irreverente que prefere o palavrão, a bebedeira e a sarjeta aos telefones celulares e gravatas em estilo italiano da geração yuppie. Enfim, um necessário anarquista, um delicioso vagabundo que despreza os valores utilitários e mercantilistas de uma sociedade em rápido processo de apodrecimento mental. Sua cáustica antilírica, recriada neste volume pelo poeta Fernando Koproski, retoma a importante tradição libertária da poesia (e da cultura) americana, e constitui uma centelha de saudável contestação nesta era sombria em que vivemos.
Claudio Daniel, A saideira e mais uma

Buk, velho safado,
Que anjas andas beliscando aí no céu ou inferno?
Que músicas das esferas andas escutando?
Que cervejas andas tomando? Néctar de lava ou hidromel de nuvens?
E que papos e porres homéricos você deve estar tomando aí com feras como você!
Pois é, cada vez mais tenho visto a moçada aqui em Pindorama
interessada em sua lira profana, simples mas contundente,
que torna o ordinário extraordinário, que resgata
o dia a dia e o mundo cão das prostitutas, fudidos e excluídos desta Terra, que castiga a pretensão
de poetastros que aqui gorgeiam, mais interessados na pose que na poesia!
E mais feliz ainda ficamos em saber que seus poemas estão traduzidos,
para nosso bom e velho português, pelas mãos sensíveis de um poeta como
Fernando Koproski.
Vale a pena conferir.
Evoé, anjo Charles!

De seu admirador,
Rodrigo Garcia Lopes


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Gravei ontem um poema no novo CD do amigo e parceiro Carlos Machado. Ele também já musicou um poema do livro TUDO QUE NÃO SEI SOBRE O AMOR, e o gravou com os vocais de Esther Tribuzzi:

ELA

ela me falava que escrever
era como morrer sol num mar de monet
eu bebendo minha dor como se fosse saquê
ela me falava que amor
não era o que vênus vê
mas o que psiquê um dia pisque
eu bebendo minha dor como se fosse whisky
ela me falava que mesmo que matisse mentisse
eram flores de luz o que vincent
pensava às cores em contra-ataque
eu bebendo minha dor como se fosse conhaque
ela me falava como se cada fala
aonde silêncio falta
fosse nosso beijo esculpido por rodin a todo instante
eu bebendo minha dor como se fosse chianti.

quando ela me falava de sua dor,
eu já bebendo qualquer coisa.

poema: Fernando Koproski
música: Carlos Machado




quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Já o meu amigo Téo Ruiz musicou esse poema do livro TUDO QUE NÃO SEI SOBRE O AMOR e o gravou junto com a querida Estrela Leminski (ela, um dos melhores poemas que o mestre fez... rsrs...), no disco da banda CASCA DE NÓS. E como é bom ouvir esses dois cantando juntos nessa gravação...

MENINA DE OLHOS VERDINHOS

por você guardar
um mar assim em teus olhinhos

de tão longe eu vim
para ficar de você junto juntinho

antes de te encontrar
em tantos lagos fiquei sozinho

é que dentro de mim
um blues chovia bem baixinho

tentei fazer poesia
do que eu chovia pelo caminho

mas era tão pouco mar
que amar mal dava um versinho.

se um dia tiver que levar
o meu amor, leva devagarinho

fala depressa todo jasmim
até ficar longe de mim pertinho

antes que uma dor qualquer
faça cárie em meu carinho.

Poema: Fernando Koproski
Música: Téo Ruiz


https://soundcloud.com/musica-de-ruiz/menina-dos-olhos-verdinhos

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

hoje ele tá na Tailândia! é o meu amigo Renatão, que musicou o poema ÓDIO PLATÔNICO e gravou com sua banda BEIJO AA FORÇA. foi o primeiro poema do livro TUDO QUE NÃO SEI SOBRE O AMOR que virou música (e com direito a solo de guitarra do Ferreira):

Ódio Platônico
(Quege/Koproski)

A tua dor que me desculpe
O que você sente nem tem mais sentido
Amor então que me preocupe
Mas o teu ódio não será correspondido

Para odiar te falta destreza
Neste olhar mais mágoa que tristeza
Se ainda não tiver percebido
Tua aspereza não me deixa comovido

Nem se disser que o que sente
Para nós dois é suficiente
Terá possibilidade

Um dia você vai entender obsessão
E não ódio de verdade
O que se odeia quando se adia o coração

https://soundcloud.com/mofonovo/beijo-aa-for-a-dio-plat-nico



terça-feira, 6 de agosto de 2013

para os que gostam de críticas , essa é uma resenha que o professor e escritor Paulo Venturelli escreveu sobre meu livro, na época do lançamento... Paulo, vc só se enganou sobre uma coisa: eu nunca disse que eu não gostava de vc. pelo contrário, sempre admirei a clareza, poesia e brilhantismo do teu pensamento. sorte é dos que têm vc como amigo ou professor... o fato é que eu não gostava DOS HORÁRIOS DE SUA AULA, lá na ufpr toda sexta às 7:30 da manhã... mas isso vc me desculpa, né? grande abraço do aluno Fernando!

KOPROSKI, POETA

Eu quero fazer uma resenha crítica a respeito do livro tudo que não sei sobre o amor, de Fernando Koproski. Sento-me à mesa (percebam a expressão séria), tomo o livro e começo a ler. A intenção é ir da primeira página à última. Impossível. Assim que leio um texto, minha cabeça começa a pulular e é como se se instalassem lá dentro todos os trapézios do mundo, em dança louca, em acrobacias arrojadas. Ou, então, parece que um jardim cheio de bulbos passa a deitar raízes em várias direções e florescer com cores, tons e matizes os mais variados.

Resumindo a situação: ler um texto de Koproski me faz escrever - eu deslizo da leitura crítica para a fruição estimulante da criação, como se os escritos do poeta abrissem porteiras de mundos até então ignorados.

Comentei a situação com um amigo meu e ele deu o conselho: não leia o livro do princípio ao fim, não faça uma simples resenha, escreva sobre estes efeitos que os textos provocam em você. A idéia me agradou e estou aqui curtindo estas mal traçadas linhas.

O que o livro de Fernando Koproski tem de especial? Tudo: dicção própria, originalidade, criação de imagens inesperadas, lirismo pungente que destoa da literatura mercadológica, ritmo sincopado para uma emoção que não se esparrama, porque é filtrada pela razão, pela construção do poema como objeto de linguagem, ousadia em escrever sobre sentimentos que os pós-concretistas haviam condenado e, junto disso, crença no verso e na palavra como mundos moldáveis para se expressar uma visão, um dado ângulo, a captação de uma cena que vem tingida com a carpintaria que parece solta, mas é rigorosa.

A poesia brasileira das últimas décadas tornou-se insuportável. Não sei se é pós-concretismo ou neoconcretismo, mas todo mundo rasteja sob o fetiche da síntese, e o resultado final é uma poesia despersonalizada, sem visão e discursos próprios. Você lê 50 livros e parece que eles foram escritos pelo mesmo autor, já que grande parte dos escritores caminha pela mesma técnica ou pela mesma falta de. E aqui em Curitiba há outra praga: impulsionados pelo sucesso de Leminski, os poetas das novas gerações se agarram ao haikai como o náufrago se pendura em qualquer coisa que mantenha sua cabeça fora da água.

Koproski, com muita personalidade, foge destas ciladas e, tenho certeza, encontrou a solução para a crise de esterilidade que grassa por nossos poetas. E o que mais me estimula é que ele é jovem. Se não vacilar, se não se entregar a modismos, se insistir em manter-se no caminho aberto, aprofundando-o, será em breve um de nossos grandes poetas. E grande poeta, para mim, é aquele que, ao ser lido, me nutre, faz as engrenagens da mente funcionar, lubrifica os labirintos, distende as asas, abre todos os olhos do corpo, empurra para a beira do abismo e diz: está aí o desafio, o começo da meada, crie. O livro de Koproski, que a todo momento abro a esmo, tem este condão mágico de me tirar do comezinho e me pôr cara-a-cara com o deslumbramento e produzir. Para mim é o que vale. E se leio tanto é justo para encontrar esta estimulação alcoólico-poético-musical-modular e ser empurrado para a página em branco, onde o bicho pega.

Sei que Fernando não gosta de mim por razões que são lá suas. Não acho isso um desastre. As antipatias também são matéria de vida. Mesmo assim e talvez até por isso, faço uma declaração de amor ao livro dele: é uma fonte onde beberico para voar alto.
Não consegui fazer uma resenha e também isso não importa. Ás vezes, na vida, é melhor deixar o formalismo de lado e dizer: cara, você é excelente, teu livro me faz vibrar e quando te criticarem, na tentativa de tirar o valor do teu trabalho, ignore. É voz de alguém que está se sentindo ameaçado pelo brilho de cetim de tuas pétalas, teus pianos, tuas primaveras e as cores rubras para as quais você dá um tom especial. E, assim, isto foi tudo o que eu não soube dizer sobre a tua poesia.

Paulo Venturelli
Jornal do Estado
24/05/2004





esse meu livro "TUDO QUE NÃO SEI SOBRE O AMOR" está completando 10 anos! é um pré-adolescente... rsrs... e pra comemorar, agora está disponível o download gratuito do CD que acompanha o livro, com os violões flamenco do meu irmão mais velho Luciano Romanelli:

porque há um excesso de céu nos olhos seus deixei
amanhecer páginas em branco sobre a neve para te conhecer.
porque há um excesso de céu nos olhos seus todos os nomes
do amor escrevi para te esquecer.

porque há um excesso de céu nos olhos seus noite a noite
tenho que te perder em tudo que for preciso. porque há um
excesso de céu nos olhos seus entendi que para as magnólias só o sentir tem sentido.

porque há um excesso de céu nos olhos seus de manhã li
lírios em teus delírios. porque há um excesso de céu nos olhos
seus de tarde vi verdade nas violetas.

porque há um excesso de céu nos olhos seus sei que se
temos uma crise depois temos crisântemos. porque há um
excesso de céu nos olhos seus ontem enterrei todos os
cadáveres das flores que a florista não quis.

porque há um excesso de céu nos olhos seus ignorei rasguei
todas as cartas que o outono me mandava. porque há um
excesso de céu nos olhos seus agora o inverno jamais irá saber meu endereço outra vez.

porque há um excesso de céu nos olhos seus um telefonema
me despertou no meio da noite. era a primavera apreensiva e
ofegante. uma primavera repleta de relógios hesitantes.

porque há esse excesso de céu nos olhos seus um telefonema me despertou no meio da noite no meio da manhã no meio da tarde. era a primavera. e eu disse

sim.

http://fernandokoproski.bandcamp.com/album/tudo-que-n-o-sei-sobre-o-amor

from tudo que não sei sobre o amor, released 09 December 2003
poem by fernando koproski
from his book "TUDO QUE NÃO SEI SOBRE O AMOR"

fernando koproski - voz
luciano romanelli - violão

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

RISCO DE ESTRELA

sei que hoje de tarde
fumei as minhas esperanças
mas um sonho me deu um alarde
você poderia ainda me ninar
fazer da sua dança
perfeição que se fez verdade

mas sei que sou pouco
para a tristeza do copo
ser corpo e chorar
estrelas por toda parte

sei que posso ser mais que isso
amanhecer toda a cidade
mas lua, sinceridade
meu sol tem outro compromisso

ser noite e amanhecer num risco
enquanto pisco queimando saudade


Fernando Koproski e Alexandre França